Presépio Santa Casa de Misericórdia de Beja
O Presépio da Santa Casa da Misericórdia de Beja é um projeto artístico iniciado em 2018, confiado desde o primeiro momento à artista Alexandra Santos Rosa, pilar fundamental desta criação que, fase após fase, tem dado corpo a uma obra única no panorama nacional.

Este presépio distingue-se pela forma como alia espiritualidade, tradição alentejana e inovação contemporânea, integrando o contributo de diferentes artistas e artesãos. Ao longo de várias fases, cada uma com identidade própria, construiu-se uma narrativa artística que enriquece a experiência do visitante e que, em 2025, será concluída com a 5.ª fase – Oferendas ao Menino.

História Cronológica do Presépio

1.ª Fase (2018) - Presépio


A fase inaugural marcou o nascimento deste projeto artístico. O desafio lançado a Alexandra Santos Rosa resultou numa obra profundamente enraizada na tradição, mas enriquecida com elementos contemporâneos e colaborativos.

O presépio foi instalado no interior de uma talha em barro de Beringel, executada pelo mestre oleiro António Mestre. Esta escolha não foi casual: a talha simboliza a ligação entre o Alentejo e a tradição vitivinícola, bem como a simbologia cristã do vinho. Pintada de branco, representa pureza, virtude e amor a Deus.

No interior, cada figura foi trabalhada manualmente pela artista, com um cuidado meticuloso nos tecidos, cores e pormenores. Os mantos e tapeçarias recorrem a técnicas artesanais como macramé, crochet e bordado Richelieu. Os materiais predominantes — lã, algodão, linho — reforçam o caráter rústico e natural da composição, enquanto os apontamentos em vidro acrescentam sofisticação.
Na parte posterior da talha, destaca-se uma composição de José Francisco, inspirada nas cores e motivos vegetais das pinturas murais da Capela de Nossa Senhora da Piedade. Ao centro, anjos músicos celebram o nascimento de Cristo, ladeados por elementos decorativos e coroando-se com a heráldica das misericórdias.

Esta fase deu início a um projeto artístico arrojado, onde tradição e modernidade se fundem em perfeita harmonia.

2.ª Fase (2019) - Santos Padroeiros


A segunda fase foi dedicada aos santos padroeiros das freguesias da cidade de Beja, que simbolicamente se unem ao presépio para saudar o nascimento de Jesus.

Para esta etapa foram convidados cinco artistas plásticos, desafiados a reinterpretar os oragos das freguesias de acordo com as suas técnicas e sensibilidades:

S. Sezinando – Escultura em mármore de Leandro Sindocha, natural de Vila Nova de S. Bento.

Santiago Maior – Figura em pele de Paula Salvador, artista bejense com formação em Florença e Paris.

S. João Batista – Escultura em barro de Manuel Carvalho, ceramista da Vidigueira, premiado nacional e internacionalmente.
Santíssimo Salvador – Figura em papel moldado de Sacha Vorontsova, artista de Istambul, reconhecida pelo seu trabalho inspirado no teatro de marionetas e nos gigantones do Minho.

Assunção de Nossa Senhora – Obra em técnicas mistas de Alexandra Santos Rosa, valorizando trapologia e massas poliméricas.

O enquadramento cenográfico foi concebido por José Francisco, que representou quatro das principais igrejas de Beja: Igreja do Carmo (S. João Batista), Sé (Santiago Maior), Igreja de S. Maria (Assunção de Nossa Senhora) e Igreja do Salvador (S. Salvador).

Esta fase reforça a dimensão espiritual do presépio, evocando amor, compaixão e proteção através dos santos que acompanham a cidade.

3.ª Fase (2020) – Alquimia


A terceira fase mergulha na história da Santa Casa da Misericórdia de Beja e na sua ligação ao Hospital de Nossa Senhora da Piedade, instituído em 1490. Inspirada na alquimia, esta etapa aproxima ciência, fé e espiritualidade.

Foram representados sete anjos, número associado à perfeição tanto na alquimia como na tradição cristã. Na Bíblia, o número 7 é recorrente — da criação do mundo aos sacramentos e virtudes — e no Apocalipse refere-se aos sete anjos diante de Deus.

As figuras angelicais distribuem-se pelas três tríades da hierarquia clássica:

Primeira tríade – Serafins e Querubins, anjos mais próximos de Deus.

Segunda tríade – Potestades (condutores da ordem sagrada e associados ao nascimento e à morte).

Terceira tríade – Arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel, e os anjos da guarda.
Cada arcanjo tem um simbolismo próprio:

Miguel – defensor contra o mal, guerreiro espiritual.

Rafael – protetor da saúde e das viagens.

Gabriel – mensageiro da Anunciação.

A paleta cromática foi inspirada em elementos químicos: preto (carbono), dourado (ouro), vermelho (bromo), prateado (prata), entre outros. Assim, esta fase estabelece uma ponte entre alquimia, ciência e fé.

4.ª Fase (2021) - Reis Magos


A quarta fase celebra a viagem dos Reis Magos — Baltazar, Gaspar e Belchior — que, guiados pela estrela, foram adorar o Menino.

Na interpretação da Misericórdia de Beja, cada rei surge acompanhado pelo animal representativo da sua terra:

Baltazar – camelo (Arábia)

Gaspar – elefante (Índia)

Belchior – leão (Pérsia)
Estes animais não só evocam simbolismo religioso e cultural, como reforçam valores de tolerância e diversidade, em consonância com os princípios das misericórdias.

O percurso dos reis é assinalado por azulejos hidráulicos, ligados à tradição bejense e presentes em todas as misericórdias do país. No céu, estrelas iluminadas indicam o caminho até ao presépio.

As oferendas — ouro, incenso e mirra — representam respetivamente a realeza, a divindade e a humanidade de Jesus, reforçando a mensagem universal da Epifania.

5.ª Fase (2025) – Oferendas ao Menino


A última fase, com inauguração prevista para dezembro de 2025, será dedicada à adoração e oferendas dos pastores ao Menino Jesus, um dos momentos mais simbólicos do Natal, que traduz humildade e gratidão.

Serão criadas quatro peças principais, cada uma desenvolvida a partir de uma ânfora em barro inspirada nos modelos romanos de transporte de vinho. Cada ânfora será transformada em personagem (pastor, ceifeira, entre outros), associada a uma estação do ano.

No interior, cada ânfora representará produtos, flora e paisagens típicas do Alentejo:

Primavera – borregos, queijo fresco, papoilas, estevas.

Verão – cereais, pão, cortiça, melancias e campos dourados.

Outono – azeitona, vinho novo, romãs, caça.

Inverno – enchidos, queijos, açorda e tradições da matança.

As estruturas serão complementadas com bases em ferro e cenários pintados com paisagens alentejanas, iluminados por focos que realçam os detalhes artísticos.

Com esta fase, o presépio conclui-se celebrando a riqueza natural e cultural da região, integrando fé, tradição e identidade local.

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